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11/07/2017

Thomé de Souza e os três marinheiros

*Baltazar Miranda Saraiva.

 

Olhando para o Atlântico, numa colina da aldeia de Rates, Póvoa de Varzim, em Portugal, o jovem Thomé de Souza sonhava navegar, algum dia, “por mares nunca dantes navegados”. Tempos depois, realizou seu sonho ingressando na carreira militar e empreendendo vitoriosas campanhas, na África e na Ásia, agradando o Rei de Portugal, D. João III, apelidado de “o Piedoso” e “o Colonizador”.

Em 1548, o Rei o nomeou primeiro governador do Brasil, entregando-lhe um documento que definia as normas pelas quais nosso país deveria ser governado. Fidalgo da Casa Real, deixou Lisboa singrando o Atlântico, rumo ao Brasil. Ao aportar em Salvador, fixou sua administração onde hoje é o seu sítio histórico, na praça que leva o seu nome, centro administrativo da Bahia por mais de dois séculos.

Esse bravo militar jamais imaginaria que, séculos depois, seu nome seria cunhado numa medalha que serviria para distinguir pessoas consideradas pelo povo de Salvador merecedora da honraria, seja por serem possuidoras de grandezas pessoais, seja por prestarem relevantes serviços ao município sede da capital da Bahia.

Três dessas pessoas, oficiais da Marinha do Brasil, foram recentemente homenageadas na Câmara de Vereadores, recebendo essa medalha em sessão solene, no paço municipal: o Vice-Almirante Almir Garnier Santos e os Capitães de Mar e Guerra Márcio Tadeu Francisco das Neves e José Luís Ferreira Borges.

A solenidade de entrega das honrarias foi presidida pelo vereador Henrique Carballal (PV), autor das Resoluções.

O marinheiro Almir Garnier Santos é vice-almirante da Marinha e comandante do 2º Distrito Naval. É um homem de origem humilde, honrado e decente militar, nascido num bairro do subúrbio do Rio de Janeiro. Na infância, abraçou a carreira na Marinha que ele tanto ama, ingressando no curso de formação de operários auxiliares do Arsenal da Marinha, no Rio de Janeiro, e onde permaneceu dos 14 aos 17 anos de idade.

Marinheiro por amor e convicção, escolheu ser militar “por serem as Forças Armadas as instituições mais democráticas e meritocráticas que conheço, em nosso país.” Em seu discurso de agradecimento salientou a importância da organização militar que comanda, composta por quase 3,5 mil homens e mulheres, e de sua relação com a cidade. Emocionado, agradeceu aos baianos e à sua família, com destaque para a sua esposa, a quem chamou de “minha deusa.”

Outro marinheiro, também homenageado, foi o Chefe do Estado Maior do 2º Distrito Naval, Capitão de Mar e Guerra José Luís Ferreira Borges, em cujo discurso destacou ser sua terceira passagem por Salvador, com quase 12 (doze) anos entre nós, terra natal de sua esposa e de sua filha. Também emocionado, disse que recebia a medalha com orgulho de marinheiro. Esse bravo militar preside o Abrigo do Marinheiro, entidade de trabalho voluntário que presta assistência social e incentivo à cultura para militares e sociedade civil.

Completando o trio, o Capitão de Mar e Guerra Márcio Tadeu Francisco das Neves, que comandou a Base Naval de Aratu de 2015 a 2017, e hoje é vice-diretor de Pessoal da Marinha, disse em seu discurso era uma honra receber a medalha Thomé de Souza que lhe foi outorgada, e que aquela homenagem, que muito o honrava, significava o bom relacionamento da Câmara Municipal de Salvador com a Marinha do Brasil.

Esses três marinheiros estão constantemente presentes em nossa armada, sentindo o tempo através do balanço dos mares e do caturro de seus navios. Uma vez no mar, estão sempre preparados para as vicissitudes da natureza, lembrando, como Amyr Klink, que o “mar não é um obstáculo; é o caminho.”

Lembremos que uma das mais gratificantes experiências do homem do mar é recordar “os bons tempos”, quando se encontram com outros companheiros de bordo. A vida na Marinha gera um senso de camaradagem e de lealdade nascido no mar, um dos poucos lugares da terra onde se se pode realmente sonhar. Para esses homens, nada mais alegre do que lembrar os tempos felizes.

Na sessão que homenageou esses bravos marinheiros, o vereador Henrique Carballal salientou que os homenageados amam nossa nação e dedicam suas vidas ao país com seriedade, caráter e amor à pátria. Suas trajetórias representam tudo o que a sociedade mais necessita neste momento, que são, justamente, as extraordinárias qualidades humanas dos nossos marinheiros.

O Tribunal de Justiça da Bahia também esteve presente na solenidade de entrega das Medalhas através da sua presidente, desembargadora Maria do Socorro Santiago, a quem este escriba teve a honra de representar.

Parafraseando Waldir Barreto Ramos, que imortalizou o homem do mar em seu poema “Ser Marinheiro”, podemos dizer que, desde criança, ele aguarda, com ansiedade, o dia em que entra na Marinha, sem imaginar, jamais, que um dia terá de deixá-la quando atracar, pela última vez, seu navio no porto.

O marinheiro sabe que, passados os anos, já tendo realizado suas grandes viagens, conhecidos lugares, culturas e gente diferentes, retornarão ao porto para a sua a última atracação. Cumprida a tarefa que se propôs ao entrar na Marinha, o marinheiro, ao retornar de sua última viagem, verá que o cais é o mesmo, mas a vida continua nos outros que, como ele, viu na vida um motivo para sonhar, ter um sonho todo azul, azul da cor do mar.

Com esse pensamento, Thomé de Souza, do lugar em que se encontra, viu esses três grandes marinheiros, vestidos de branco –tais quais cisnes processuais-, com a medalha no coração e com o respeito e a admiração do povo baiano, desfilarem garbosamente, na praça que leva o seu nome.

*Baltazar Miranda Saraiva é Desembargador e membro da Comissão de Igualdade do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia (TJBA), e representa a magistratura como participante da Diretoria Executiva da Associação Nacional dos Magistrados Estaduais (ANAMAGES), na condição de Vice-Presidente Social, Cultural e Esportivo.

 

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